O cavalo perdido e outras histórias


“Num dado momento penso que num canto de mim nascerá uma planta. Começo a rondá-la, achando que nesse canto se produziu alguma coisa rara, mas que poderia ter futuro artístico. Eu estaria feliz se essa idéia não fracassasse de todo. Contudo, devo esperar por um tempo ignorado: não sei como fazer a planta germinar, nem como favorecer seu crescimento, nem como cuidar dela; só pressinto ou desejo que tenha folhas de poesia; ou algo que se transforme em poesia se certos olhos olharem para ela. Devo tomar cuidado para que não ocupe espaço demais, para que não pretenda ser bela ou intensa, mas que seja a planta que ela mesma está destinada a ser, e que eu possa ajudá-la a sê-lo. Ao mesmo tempo, ela crescerá de acordo com um observador que não se importará muito em querer lhe sugerir intenções ou grandezas demais. Se for uma planta dona de si mesma, terá uma poesia natural, desconhecida para si própria. Ela deve ser como uma pessoa que não sabe quanto vai viver, mas que tem necessidades próprias, com um orgulho discreto, um pouco desajeitada, e que pareça improvisada. Ela não conhecerá suas próprias leis, embora as tenha no mais fundo e a consciência não as possa alcançar. Não saberá o grau e a maneira como a consciência intervirá, mas em última instância imporá sua vontade. E ensinará a consciência a ser desinteressada.”

Felisberto Hernández

[esse texto fala demais com a menina de 13 anos]

Ode à Fuinha

Ah, os homens... coisas sempre tão macias. E esses olhinhos pequenos de fuinha? Que não poupam nem as próprias franjas? Que sabem demais onde querem chegar... Maciez dessas sobrancelhas grossas e da pele branca cor-de-parede, das sardinhas na bochecha que riem mesmo da cara gente.

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As mão sempre nas calças, a contento diante da total ausência de bundas! Levaram-nas junto com o teu juízo; só te deixaram mesmo as mãos para que te preenchessem os bolsos e te dependurasse no teto pra fazer pouco do meu medo do alto.

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Ó, fuinha errante, vá sem erro pra esse lugar que te é certo, além do sétimo céu e dos pilares dos mar: o quinto dos infernos; onde as personagens das tuas piadas baratas te aguardam, todas as marias pedrinhos e josés, faz de faz de mim um totem de manteiga e me ponha todos os bigodes que quiser, só me deixe fingir que leio na santa paz de te ver sem bundas apenas por trás.

The Weepies

World Spins Madly On

Vigia do sono



O vigia do sono me puxa as cobertas e me arrasta os pés pelo chão do quarto escuro. Derruba-me diante da janela, aonde caio num tropeço, e apertando meu rosto diante do vidro esfumaçado aponta na paisagem um quadro, um retrato.


Me fala das coisas do mundo, dos homens, de tudo mais e me conta histórias. Enxerga meus olhos mesmo fechados e ri fácil quando percebe que minto, e ele sempre sabe.


A lágrima que desce não é a água espremida do seu abraço, trata-se do respingo das engrenagens do pensamento que ele mesmo conduz através de terrenos desconhecidos, adiante dos campos de tulipas e das casas de vidro. Enxuga as lágrimas com a maçã do rosto e com o próprio queixo mistura meu líquido com o seu suor.


Ele me ama com compaixão, sem alarde. Do fundo do próprio olho ele busca respostas pras minhas dúvidas e por isso me ama, por saber que isso é sempre a resposta do que eu quero saber. [com o fundo do olho e não com o coração]


Ele me ama com dó, mas é amor, então recebo. Enxergo no seu rosto um desespero quieto de quem vê a morte anunciada: é um amor com medo da morte pacata, sem som, sem estaca.


[...]


No mais das vezes ele me deita sobre colo e arranca meus cabelos fio por fio, enquanto sussurra repetidamente trechos curtos de músicas conhecidas. Comenta assuntos do dia e com a ponta dos mesmos dedos que acusa, me serve de frutas em pequenas porções até que o sono chegue e ele tome o meu lugar.

No embalo do eterno mimimi



Claire: "I don't need an Ice Cream comb."
Drew:
"What's an Ice Cream comb?"
Claire:
"You know, here's a little somethin' that makes you happy and melts in five minutes."

Claire: "We are the substitute people..."


Sobre a ilustração: Kurt Halsey

Sobre a citação: Elizabethtown



[I'm going to miss your lips. And everything attached to them]



 

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