Ode à Fuinha

Ah, os homens... coisas sempre tão macias. E esses olhinhos pequenos de fuinha? Que não poupam nem as próprias franjas? Que sabem demais onde querem chegar... Maciez dessas sobrancelhas grossas e da pele branca cor-de-parede, das sardinhas na bochecha que riem mesmo da cara gente.

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As mão sempre nas calças, a contento diante da total ausência de bundas! Levaram-nas junto com o teu juízo; só te deixaram mesmo as mãos para que te preenchessem os bolsos e te dependurasse no teto pra fazer pouco do meu medo do alto.

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Ó, fuinha errante, vá sem erro pra esse lugar que te é certo, além do sétimo céu e dos pilares dos mar: o quinto dos infernos; onde as personagens das tuas piadas baratas te aguardam, todas as marias pedrinhos e josés, faz de faz de mim um totem de manteiga e me ponha todos os bigodes que quiser, só me deixe fingir que leio na santa paz de te ver sem bundas apenas por trás.

The Weepies

World Spins Madly On

Vigia do sono



O vigia do sono me puxa as cobertas e me arrasta os pés pelo chão do quarto escuro. Derruba-me diante da janela, aonde caio num tropeço, e apertando meu rosto diante do vidro esfumaçado aponta na paisagem um quadro, um retrato.


Me fala das coisas do mundo, dos homens, de tudo mais e me conta histórias. Enxerga meus olhos mesmo fechados e ri fácil quando percebe que minto, e ele sempre sabe.


A lágrima que desce não é a água espremida do seu abraço, trata-se do respingo das engrenagens do pensamento que ele mesmo conduz através de terrenos desconhecidos, adiante dos campos de tulipas e das casas de vidro. Enxuga as lágrimas com a maçã do rosto e com o próprio queixo mistura meu líquido com o seu suor.


Ele me ama com compaixão, sem alarde. Do fundo do próprio olho ele busca respostas pras minhas dúvidas e por isso me ama, por saber que isso é sempre a resposta do que eu quero saber. [com o fundo do olho e não com o coração]


Ele me ama com dó, mas é amor, então recebo. Enxergo no seu rosto um desespero quieto de quem vê a morte anunciada: é um amor com medo da morte pacata, sem som, sem estaca.


[...]


No mais das vezes ele me deita sobre colo e arranca meus cabelos fio por fio, enquanto sussurra repetidamente trechos curtos de músicas conhecidas. Comenta assuntos do dia e com a ponta dos mesmos dedos que acusa, me serve de frutas em pequenas porções até que o sono chegue e ele tome o meu lugar.

No embalo do eterno mimimi



Claire: "I don't need an Ice Cream comb."
Drew:
"What's an Ice Cream comb?"
Claire:
"You know, here's a little somethin' that makes you happy and melts in five minutes."

Claire: "We are the substitute people..."


Sobre a ilustração: Kurt Halsey

Sobre a citação: Elizabethtown



[I'm going to miss your lips. And everything attached to them]





Você sabe, eu sei, que tem coisas que a gente tem que dizer...
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E é enquanto escrevo que percebo que não se trata exatamente de construir algo a ser transmitido, compreendido, por mais ninguém: é pra ser dito.
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Por isso que os dias passam na companhia apressada das horas, sempre rápido demais, e eu sempre aqui! Eu sempre...
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Sento e escrevo sobre o que não sei pra tentar acalmar essa coisa que eu não sei como chama. Então olho pro rosto refletido do monitor tentando perceber no semblante alguma intenção. Separo uns livros, leio velhos rabiscos e recorto algumas coisas. Procuro nas páginas por pistas e nos dizeres conselhos. Lembro de sentimentos antigos e misturo as notas como num perfume procurando uma identidade de essências. Preciso saber do que se trata pra que eu possa expulsar ao dizer. Não é assim que chamam? Por pra fora?

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Queria mesmo falar sobre uns medos bobos (e estranhos) que tenho. Sobre essa solidão que me cutuca, e que é tão intrusa quanto descabida. Tenho ao meu redor tanta gente especial e que gosta mesmo de mim... diria que sou solitária, mas não só.

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Também sobre essa dicotomia que teima em repousar sobre tudo em mim. EM TUDO. E eu canso de mudar de humor, de disposição e de interesse sempre tão rápido... canso mesmo. Canso de sempre estar cansada, e a cada dia por um motivo novo.

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Há tanta coisa pra dizer, mas as horas continuam passando e eu me convenço cada vez mais de que a graça toda tá no exercício, e ainda bem por isso, já que tenho um blog feito pra não ser lido. Então descanso ao perceber que minhas limitações como produtora de texto pouco importam pra quem quer que seja, a começar por mim, e que posso escrever sem saber a respeito do quê e da forma mais porca que existir: eu não sou uma escritora, sou uma escrevente! É como disse antes, sobre o sentido da coisa toda estar no processo e não no resultado.

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Concluo com a percepção de que não disse nada de fato, mas com a satisfação de ter colocado finalmente algo pra fora depois de dias de angústia. Há linhas escritas e por hoje isso me basta! Me agarro no que tenho e tento fazer isso ser o bastante, mesmo que não seja.



Sobre a ilustração: Kelly Vivianco (adoro)


Sobre tudo o que sobra


Será? Seria? Seremos?

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E isso o que me faz acordar toda noite mais ou menos no mesmo horário, mais ou menos do mesmo jeito, e que acaba sempre me fazendo perguntar ao espelho sobre os mesmos ângulos...

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Ângulos do rosto.

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Será que vc gosta dos ângulos? Será que no rosto eles não te fariam lembrar das nuvens? Não seria possível que te fizessem lembrar do céu? Mesmo essas pontas e retas? Mesmo tendo no meio meus olhos tão escuros?

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E são escuros.

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Não há registro de olhos mais negros que estes, nem se especifica o tom na cartela de cores. Diz-se por aí, meio espalhado pelo vento, que tratam-se de pérolas disfarçadas de carvão bruto aguardando o dia que somente precisem refletir seus desejos incrustados.

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Somente os seus.

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Pérolas que coçam da areia escondida debaixo do travesseiro, desse que não acomoda meu rosto, pois é comum que eu acorde no meio da noite, mais ou menos do mesmo jeito, mais ou menos na mesma hora...

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Areia que sobra dos encontros nos corredores, dos estalos dos corpos, de sombras que sejam... Pó que acumula quando noticio meus dizeres nos seus diálogos, da sua presença piscando no monitor, da constatação de entrelaçamento de duas existências: da nossa.

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Pó que sobra.

A música mudando minha vida desde 1987


 

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