Eu preciso de amor, não desse que me preenche, que me é comum e conhecido,
mas desse feito mesmo do desperdício, do excesso, e de tudo mais que irrite o ouvido do desamor.

(que me embale quando estralar as pestanas, todas as três vezes)

Eu quero um grande amor, e os pequenos também
[te amo, eu sei. depois disso nada é o mesmo, já não é há muito tempo]

Eu lembro



É quando eu fico que eu lembro.
Eu não vou, não volto, eu fico, entende?
A lei da inércia usa toda sua sedução sobre mim, de forma que eu me torno o objeto próprio que a conceitua, que a significa: eu fico.
E eu lembro...

Nada é mais solidão do que eu. Nem a lua, nem o sol...
Eu sou só, e eu fico.

E por não haver mais nada no mundo a fazer eu lembro.
Lembro como se pode lembrar, com todas as pequenas reentrâncias. É curvilíneo, colorido e esfumaçado... É desse jeito mesmo que eu lembro; é nisso que eu finco todas as lembranças que tenho do movimento, e elas quase já parecem fotografias velhas, que ninguém mais quer, nem eu.

E eu lembro sim, diante do comum e do semelhante, claro que sim, eu lembro. Só que pelo oposto e pela negação também.
Então pelo o que deveria lembrar, e também pelo o que não deveria, eu lembro.


Lembro incessantemente a cada segundo que é tão triste estar sempre só.




Ando imersa nesse monte de vida
com gosto de fruta nova, de coisa florida


...

Não tem jeito, eu ainda acho que cair é melhor do que nunca ter tido a vista do alto.

Oferta

Faz tempo eu fiz um pacto interno entre mim e eu mesma, Nádia Nadinha e Nadonna em comum acordo, de que não ia amolar ninguém com os meus dramas. Mas OI? Esse é meu blog, amolá-lo-ei instead.
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Não que eu não tenha um colo pra me consolar, ou ouvidos mais do que qualificados para tanto. Ó céus, como tenho ótimo colos, e os mais maravilhosos ouvidos! Todos devidamente equipados com ombros acolhedores e tudo mais que eu precisar. É quando a vida ta uma merda, mas uma merda de respeito, tipo Joseph Climber regozijando na tua desgraça, que algum tipo de vibração eletromagnética é emanado no universo e quando menos se espera esses seres chamados comumente de “amigos” se fazem de mola-de-fundo-de-poço e te jogam pra cima, um pra cima muito melhor.

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Sem essa de uma mão só, eu tenho muitos amigos, muitos mesmo. Seres humanos que me enchem o peito de abestalhamento. Deus me fez com o dom metálico de reclamar da vida, mas não me deu motivos no gatilho: eu tenho amigos. Olhar nos olhos de outra pessoa e realmente ver algo refletido ali é mágico. É como diz o poeta: “Love is love reflected”.

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Foi depois de uma conversa com grande amigo que eu tomei essa decisão, a de não amolar mais o mundo. Esse amigo se chama Cristiano. Faço questão de dizer que nem em 45.580.342 de caracteres há como descrever o ser humano lindo que ele é, que além de me emprestar livros de filósofos franceses e de me dar chocolates (essa espinha aqui dedicada a ele) de vez em quando resolve ser o Cris de sempre e falar exatamente o que eu preciso ouvir, de um jeito sempre tão cristianamente lindo.

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Então foi isso, decidi que ia me esforçar pra oferecer outro tipo de material pro mundo, e olha que ta difícil, mas ta indo...

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Não é fácil oferecer. Há os que não sabem receber, os que não sabem que algo é ofertado, e os que simplesmente não querem receber. Difícil de explicar, mas tem isso que pra mim é muito claro: eu quero ter algo pra oferecer.

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Cheguei a pensar em trocentas mil maneiras de ser diferente. Todas elas eram socialmente mais eficientes, mais inteligentes até, só que nenhuma me funciona. Ver a sua oferta voltar vazia é tão difícil. Mais difícil ainda é assistir sua vida virar num dramalhão mexicano de forma que nem vc consegue acreditar que tudo de repente ta essa merda toda.

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Tem gente por aí pra pisar em vc e rodar o pezinho com salto 15 e colocar a cereja no bolo do seu sofrimento, pra te fazer ter certeza de que é menos do que essa merda toda que eu anuncio. Tem meu povo, tem sim, e confesso que acreditei.

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Mas também tem aqueles que teimam em aparecer dos lugares mais inóspitos e encher a coisa toda de sentido, em me lembrar quem sou, porque enquanto eu me “era” eles estavam lá, então de repente eu lembro.

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Por isso decidi amordaçar as lamúrias como posso, porque eu quero poder retribuir um pouco desse tanto que venho recebendo. Nem sempre dá certo, na verdade ainda é muito difícil, mas ta indo (exponencialmente, por mais incrível que pareça).

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Coisas simples, que vão desde um link sobre o amicus curiae e uma companhia pra esperar o ônibus ou pra compartilhar a insônia, um olhar no olho e um abraço sincero, desde vários mimos até declarações de amor secretas. Tudo isso é muito importante pra mim, mas nada me deixa mais feliz do que perceber que eles sabem que podem contar comigo. Decidi que quero ser mais ouvido do que boca, mais colo do que choro, mais presença do que pesar. Essa escolha é plenamente minha.

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Pois é, “I'm not alone, dear loneliness. You forgot but I remember this”.

Poema

Assim como quem precisa de piedade, de clemência, preciso te escrever um poema.

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Quero escrever um poema bem lindo, que toque o seu coração e que te faça fechar os olhinhos rasgados.

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Quero que ele te esquente como o sol no sereno, e que te faça rir um sorriso pequeno, sozinho, em qualquer lugar.

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Ele vai ser tão lindo que vais querer decorar cada signo, cada curva da minha letra, vai tatuar um verso no corpo, vai te fazer lembrar da tua flor.

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Você vai procurar um papel cheiroso, uma foto, ou talvez uma moldura, e não vai achar. Nada vai parecer ornar com ele.

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Te lembrará de um tempo que nunca existiu, nem nos teus sonhos, de uma felicidade tão plena que foge às tuas habilidades sequer cogitá-la, que existe maior que vc, que eu, que tudo junto...

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...vai soar como toalha de setin, como vela acesa, como reza pronta, como pão e fome, como água e sede... vai abrir seus olhos, então, quem sabe, você vai me ver.

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Com ele, por meio dele, eu vou te obrigar a pensar em mim, nos meus versos, nos meus cheiros, nos meus temperos.

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Quem sabe assim, somente assim, desse jeito mesmo, deixará de ser eu, você, pra ser a gente, certa pessoa do plural.

O nada que você me deu

Enquanto todo o resto pára pra te ouvir eu olho pra vc e vejo nada. Nada.

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Não um nada qualquer, um nada doído, ressentido, que por isso mesmo deixa de ser nada e dói.

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Essa dor não é dor, é um nada acrescido. Somente chega a ser dor porque lhe falta um nome que caiba. Então fico com a dor, mesmo achando e esse nada deveria ter o teu nome. Deveria ter aqui a tua foto estampada.

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Esse nada que não é nada, essa dor que não é dor... certamente é menos do que eu precisava, e bem maior do que devia ser. Mas é, e está aqui, e me acompanha. Fui eu quem deixou doer.

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Vc me ofereceu nada e eu aceitei. Eu quiz receber. Era meu: o nada que você me deu. Fiz o que quis com ele -já que era meu- só que tudo que eu fiz foi errado, de forma que não demorou para o nada deixar de ser nulo e se tornar negativo, em conflito com qualquer positivo que ousasse existir. O positivo nunca foi alimentado, morreu agonizado numas lembranças turvas e sem registro, carentes de sentido.

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Deixei o nada tomar forma, gosto e cor. Um nada que pesa, que deixa de ser nada pra ser dor.

 

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