Luto

Grita, esperneia, chora, esbraveja, chora, espatifa qualquer coisa no chão, chora, briga com o pai, com a irmã, com a amiga, bate boca com o padeiro, com a tia do bombom, com o moço do cafezinho, e olha que eu nem tomo café, e olha que eu nem nada mais, e chora, nossa como chora! Joga todas as peças no chão, cria bolhas nos joelhos tentando encontrar os encaixes, usa o martelo, a serra elétrica, o maçarico, mas nem toda eloqüência do pensamento... Nada, não há nada que tenha vivido, nada que tenha me feito chegar até aqui que me dê pista alguma de como juntar os pedaços, nem 6 tipos de cola, nem o tempo, ele dont give a shit.

Mas tudo passa, até ela, a raiva, ela tb vai me deixar.

[...]

Cheguei a digitar os números... eram 14:34 de um janeiro ainda não findo. Por um segundo esqueci que não te amo mais... Um telefonema de notícias nunca recebidas.

Fechei uns olhos que nunca mais tornaram a abrir, enquanto largava o telefone pra recolher meus cacos pelo chão. Olhos meus tão ternos, tão sinceros.

[...]

E eu já não sei mais até aonde foi amor, substantivo concreto ocupando espaço e existência, cheio de reações químicas e nervosas, cheio de si mesmo, e quando virou só amar, verbo de ação pela ação somente, mas sem nenhum objeto.

[...]

E é outro dia, qualquer um deles, com única e árdua tarefa de preencher o espaço entre o primeiro piscar do dia e o último.

[...]

[...]

E aqui gasto o toco do lápis, o resto da tinha. Minha única herança é essa matéria de poesia, meu Tomas. Finito.

1 Response to Luto

28 de abril de 2010 13:20

Morri de tão lindo! Até a ilustração! Nossa fiquei pensando...

 

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