Belle and Sebastian

Resoluções rápidas de ano novo


1 – Viajar. São Judas Tadeu, padroeiro das causas impossíveis (é esse mesmo???), olhai por essa Nadinha: ou eu viajo esse ano, ou eu explodo. Alguém explica pra minha mãe que gêmeos é o signo das viagens, e que meu sol também está posicionado na casa das viagens... gente, 7 anos sem viajar! Estão usurpando toda a minha energia astrológica por aqui! Nadinha explode Sr Judas Tadeu (hehe, acho que to nomeando o santo a cavaleiro da ordem real Inglesa, ou da Távola Redonda =P). Então é isso, ou eu viajo ou eu começo uma poupança com tal finalidade.

2 – Aprender a dizer uns “não” ou talvez uns “vai tomar no meio do buraco” utilizando a expressão de maior impacto, obviamente.

3 – Comprar o box com todas as temporadas de Gilmore Girls antes que parem de produzir

4 – Voltar a minha rotina diária do corrida

5 – Não comprar 15 livros de uma vez. Leio tudo muito rápido e depois fico somente na companhia da prestação e sem nenhum livro novo pra ler. Pois bem, comprarei UM livro por mês e lerei somente este livro até que o ordenado do mês vindouro dê o ar da graça e o ciclo da vida se renove.

6 – Mudar os velhos hábitos. TODOS.

7 – Continuar me esforçando pra não perder o contato com ninguém do meu coração. Nem do colégio, nem da faculdade e etc. Eu tenho OS MELHORES AMIGOS DO MUNDO!

8 – Emagrecer 4 kilos. Na verdade precisava de uns 6, 7, talvez 8... mas é como a Tia da academia que eu tanto paguei e não fui sempre dizia: Meta possível, resultado garantido. Deixarei a baranguiçe no passado e seguirei firme na busca da Diva exterior.

9 – Ano passado tinha nas minhas resoluções “ser menos trouxa”. Esse ano resolvi estabelecer algo que eu efetivamente tenha condições de cumprir, então alterei para “ser trouxa somente com quem merece”. A trouxidão está impregnada por aqui e não sai nem com Omo tripla ação twist carpado.

10 – Não precisar fazer nenhuma resolução pra 2011. Ano que vem quero terminar só agradecendo =)



No fim do dia,
Ao soar das badaladas, das vidas viradas
O amor não é nada
nada

Oração


Deus, me dê forças pra que eu não seja assim tão forte, pra que eu não esqueça de tudo assim, tão fácil, pra que ainda haja dor...

É só na dor, Senhor, que eu encontro as armas pra não deixar o mundo me fazer de refém, que eu tenho o egoísmo necessário pra não ser somente uma alternativa pra solidão de ninguém.

"Sobre todas as coisas que se deve guardar, guarda seu coração."

Guarda o meu Senhor, porque hoje eu sou forte, mas tão forte assim, eu não quero mesmo ser.

Preciso que doa,
Que marque
que pulse feito sangue, que mova, que mova
me faça mover
Por favor, não me deixa esquecer.

O cavalo perdido e outras histórias


“Num dado momento penso que num canto de mim nascerá uma planta. Começo a rondá-la, achando que nesse canto se produziu alguma coisa rara, mas que poderia ter futuro artístico. Eu estaria feliz se essa idéia não fracassasse de todo. Contudo, devo esperar por um tempo ignorado: não sei como fazer a planta germinar, nem como favorecer seu crescimento, nem como cuidar dela; só pressinto ou desejo que tenha folhas de poesia; ou algo que se transforme em poesia se certos olhos olharem para ela. Devo tomar cuidado para que não ocupe espaço demais, para que não pretenda ser bela ou intensa, mas que seja a planta que ela mesma está destinada a ser, e que eu possa ajudá-la a sê-lo. Ao mesmo tempo, ela crescerá de acordo com um observador que não se importará muito em querer lhe sugerir intenções ou grandezas demais. Se for uma planta dona de si mesma, terá uma poesia natural, desconhecida para si própria. Ela deve ser como uma pessoa que não sabe quanto vai viver, mas que tem necessidades próprias, com um orgulho discreto, um pouco desajeitada, e que pareça improvisada. Ela não conhecerá suas próprias leis, embora as tenha no mais fundo e a consciência não as possa alcançar. Não saberá o grau e a maneira como a consciência intervirá, mas em última instância imporá sua vontade. E ensinará a consciência a ser desinteressada.”

Felisberto Hernández

[esse texto fala demais com a menina de 13 anos]

Ode à Fuinha

Ah, os homens... coisas sempre tão macias. E esses olhinhos pequenos de fuinha? Que não poupam nem as próprias franjas? Que sabem demais onde querem chegar... Maciez dessas sobrancelhas grossas e da pele branca cor-de-parede, das sardinhas na bochecha que riem mesmo da cara gente.

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As mão sempre nas calças, a contento diante da total ausência de bundas! Levaram-nas junto com o teu juízo; só te deixaram mesmo as mãos para que te preenchessem os bolsos e te dependurasse no teto pra fazer pouco do meu medo do alto.

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Ó, fuinha errante, vá sem erro pra esse lugar que te é certo, além do sétimo céu e dos pilares dos mar: o quinto dos infernos; onde as personagens das tuas piadas baratas te aguardam, todas as marias pedrinhos e josés, faz de faz de mim um totem de manteiga e me ponha todos os bigodes que quiser, só me deixe fingir que leio na santa paz de te ver sem bundas apenas por trás.

The Weepies

World Spins Madly On

Vigia do sono



O vigia do sono me puxa as cobertas e me arrasta os pés pelo chão do quarto escuro. Derruba-me diante da janela, aonde caio num tropeço, e apertando meu rosto diante do vidro esfumaçado aponta na paisagem um quadro, um retrato.


Me fala das coisas do mundo, dos homens, de tudo mais e me conta histórias. Enxerga meus olhos mesmo fechados e ri fácil quando percebe que minto, e ele sempre sabe.


A lágrima que desce não é a água espremida do seu abraço, trata-se do respingo das engrenagens do pensamento que ele mesmo conduz através de terrenos desconhecidos, adiante dos campos de tulipas e das casas de vidro. Enxuga as lágrimas com a maçã do rosto e com o próprio queixo mistura meu líquido com o seu suor.


Ele me ama com compaixão, sem alarde. Do fundo do próprio olho ele busca respostas pras minhas dúvidas e por isso me ama, por saber que isso é sempre a resposta do que eu quero saber. [com o fundo do olho e não com o coração]


Ele me ama com dó, mas é amor, então recebo. Enxergo no seu rosto um desespero quieto de quem vê a morte anunciada: é um amor com medo da morte pacata, sem som, sem estaca.


[...]


No mais das vezes ele me deita sobre colo e arranca meus cabelos fio por fio, enquanto sussurra repetidamente trechos curtos de músicas conhecidas. Comenta assuntos do dia e com a ponta dos mesmos dedos que acusa, me serve de frutas em pequenas porções até que o sono chegue e ele tome o meu lugar.

No embalo do eterno mimimi



Claire: "I don't need an Ice Cream comb."
Drew:
"What's an Ice Cream comb?"
Claire:
"You know, here's a little somethin' that makes you happy and melts in five minutes."

Claire: "We are the substitute people..."


Sobre a ilustração: Kurt Halsey

Sobre a citação: Elizabethtown



[I'm going to miss your lips. And everything attached to them]





Você sabe, eu sei, que tem coisas que a gente tem que dizer...
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E é enquanto escrevo que percebo que não se trata exatamente de construir algo a ser transmitido, compreendido, por mais ninguém: é pra ser dito.
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Por isso que os dias passam na companhia apressada das horas, sempre rápido demais, e eu sempre aqui! Eu sempre...
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Sento e escrevo sobre o que não sei pra tentar acalmar essa coisa que eu não sei como chama. Então olho pro rosto refletido do monitor tentando perceber no semblante alguma intenção. Separo uns livros, leio velhos rabiscos e recorto algumas coisas. Procuro nas páginas por pistas e nos dizeres conselhos. Lembro de sentimentos antigos e misturo as notas como num perfume procurando uma identidade de essências. Preciso saber do que se trata pra que eu possa expulsar ao dizer. Não é assim que chamam? Por pra fora?

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Queria mesmo falar sobre uns medos bobos (e estranhos) que tenho. Sobre essa solidão que me cutuca, e que é tão intrusa quanto descabida. Tenho ao meu redor tanta gente especial e que gosta mesmo de mim... diria que sou solitária, mas não só.

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Também sobre essa dicotomia que teima em repousar sobre tudo em mim. EM TUDO. E eu canso de mudar de humor, de disposição e de interesse sempre tão rápido... canso mesmo. Canso de sempre estar cansada, e a cada dia por um motivo novo.

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Há tanta coisa pra dizer, mas as horas continuam passando e eu me convenço cada vez mais de que a graça toda tá no exercício, e ainda bem por isso, já que tenho um blog feito pra não ser lido. Então descanso ao perceber que minhas limitações como produtora de texto pouco importam pra quem quer que seja, a começar por mim, e que posso escrever sem saber a respeito do quê e da forma mais porca que existir: eu não sou uma escritora, sou uma escrevente! É como disse antes, sobre o sentido da coisa toda estar no processo e não no resultado.

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Concluo com a percepção de que não disse nada de fato, mas com a satisfação de ter colocado finalmente algo pra fora depois de dias de angústia. Há linhas escritas e por hoje isso me basta! Me agarro no que tenho e tento fazer isso ser o bastante, mesmo que não seja.



Sobre a ilustração: Kelly Vivianco (adoro)


Sobre tudo o que sobra


Será? Seria? Seremos?

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E isso o que me faz acordar toda noite mais ou menos no mesmo horário, mais ou menos do mesmo jeito, e que acaba sempre me fazendo perguntar ao espelho sobre os mesmos ângulos...

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Ângulos do rosto.

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Será que vc gosta dos ângulos? Será que no rosto eles não te fariam lembrar das nuvens? Não seria possível que te fizessem lembrar do céu? Mesmo essas pontas e retas? Mesmo tendo no meio meus olhos tão escuros?

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E são escuros.

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Não há registro de olhos mais negros que estes, nem se especifica o tom na cartela de cores. Diz-se por aí, meio espalhado pelo vento, que tratam-se de pérolas disfarçadas de carvão bruto aguardando o dia que somente precisem refletir seus desejos incrustados.

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Somente os seus.

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Pérolas que coçam da areia escondida debaixo do travesseiro, desse que não acomoda meu rosto, pois é comum que eu acorde no meio da noite, mais ou menos do mesmo jeito, mais ou menos na mesma hora...

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Areia que sobra dos encontros nos corredores, dos estalos dos corpos, de sombras que sejam... Pó que acumula quando noticio meus dizeres nos seus diálogos, da sua presença piscando no monitor, da constatação de entrelaçamento de duas existências: da nossa.

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Pó que sobra.

A música mudando minha vida desde 1987




Eu preciso de amor, não desse que me preenche, que me é comum e conhecido,
mas desse feito mesmo do desperdício, do excesso, e de tudo mais que irrite o ouvido do desamor.

(que me embale quando estralar as pestanas, todas as três vezes)

Eu quero um grande amor, e os pequenos também
[te amo, eu sei. depois disso nada é o mesmo, já não é há muito tempo]

Eu lembro



É quando eu fico que eu lembro.
Eu não vou, não volto, eu fico, entende?
A lei da inércia usa toda sua sedução sobre mim, de forma que eu me torno o objeto próprio que a conceitua, que a significa: eu fico.
E eu lembro...

Nada é mais solidão do que eu. Nem a lua, nem o sol...
Eu sou só, e eu fico.

E por não haver mais nada no mundo a fazer eu lembro.
Lembro como se pode lembrar, com todas as pequenas reentrâncias. É curvilíneo, colorido e esfumaçado... É desse jeito mesmo que eu lembro; é nisso que eu finco todas as lembranças que tenho do movimento, e elas quase já parecem fotografias velhas, que ninguém mais quer, nem eu.

E eu lembro sim, diante do comum e do semelhante, claro que sim, eu lembro. Só que pelo oposto e pela negação também.
Então pelo o que deveria lembrar, e também pelo o que não deveria, eu lembro.


Lembro incessantemente a cada segundo que é tão triste estar sempre só.




Ando imersa nesse monte de vida
com gosto de fruta nova, de coisa florida


...

Não tem jeito, eu ainda acho que cair é melhor do que nunca ter tido a vista do alto.

Oferta

Faz tempo eu fiz um pacto interno entre mim e eu mesma, Nádia Nadinha e Nadonna em comum acordo, de que não ia amolar ninguém com os meus dramas. Mas OI? Esse é meu blog, amolá-lo-ei instead.
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Não que eu não tenha um colo pra me consolar, ou ouvidos mais do que qualificados para tanto. Ó céus, como tenho ótimo colos, e os mais maravilhosos ouvidos! Todos devidamente equipados com ombros acolhedores e tudo mais que eu precisar. É quando a vida ta uma merda, mas uma merda de respeito, tipo Joseph Climber regozijando na tua desgraça, que algum tipo de vibração eletromagnética é emanado no universo e quando menos se espera esses seres chamados comumente de “amigos” se fazem de mola-de-fundo-de-poço e te jogam pra cima, um pra cima muito melhor.

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Sem essa de uma mão só, eu tenho muitos amigos, muitos mesmo. Seres humanos que me enchem o peito de abestalhamento. Deus me fez com o dom metálico de reclamar da vida, mas não me deu motivos no gatilho: eu tenho amigos. Olhar nos olhos de outra pessoa e realmente ver algo refletido ali é mágico. É como diz o poeta: “Love is love reflected”.

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Foi depois de uma conversa com grande amigo que eu tomei essa decisão, a de não amolar mais o mundo. Esse amigo se chama Cristiano. Faço questão de dizer que nem em 45.580.342 de caracteres há como descrever o ser humano lindo que ele é, que além de me emprestar livros de filósofos franceses e de me dar chocolates (essa espinha aqui dedicada a ele) de vez em quando resolve ser o Cris de sempre e falar exatamente o que eu preciso ouvir, de um jeito sempre tão cristianamente lindo.

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Então foi isso, decidi que ia me esforçar pra oferecer outro tipo de material pro mundo, e olha que ta difícil, mas ta indo...

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Não é fácil oferecer. Há os que não sabem receber, os que não sabem que algo é ofertado, e os que simplesmente não querem receber. Difícil de explicar, mas tem isso que pra mim é muito claro: eu quero ter algo pra oferecer.

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Cheguei a pensar em trocentas mil maneiras de ser diferente. Todas elas eram socialmente mais eficientes, mais inteligentes até, só que nenhuma me funciona. Ver a sua oferta voltar vazia é tão difícil. Mais difícil ainda é assistir sua vida virar num dramalhão mexicano de forma que nem vc consegue acreditar que tudo de repente ta essa merda toda.

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Tem gente por aí pra pisar em vc e rodar o pezinho com salto 15 e colocar a cereja no bolo do seu sofrimento, pra te fazer ter certeza de que é menos do que essa merda toda que eu anuncio. Tem meu povo, tem sim, e confesso que acreditei.

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Mas também tem aqueles que teimam em aparecer dos lugares mais inóspitos e encher a coisa toda de sentido, em me lembrar quem sou, porque enquanto eu me “era” eles estavam lá, então de repente eu lembro.

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Por isso decidi amordaçar as lamúrias como posso, porque eu quero poder retribuir um pouco desse tanto que venho recebendo. Nem sempre dá certo, na verdade ainda é muito difícil, mas ta indo (exponencialmente, por mais incrível que pareça).

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Coisas simples, que vão desde um link sobre o amicus curiae e uma companhia pra esperar o ônibus ou pra compartilhar a insônia, um olhar no olho e um abraço sincero, desde vários mimos até declarações de amor secretas. Tudo isso é muito importante pra mim, mas nada me deixa mais feliz do que perceber que eles sabem que podem contar comigo. Decidi que quero ser mais ouvido do que boca, mais colo do que choro, mais presença do que pesar. Essa escolha é plenamente minha.

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Pois é, “I'm not alone, dear loneliness. You forgot but I remember this”.

Poema

Assim como quem precisa de piedade, de clemência, preciso te escrever um poema.

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Quero escrever um poema bem lindo, que toque o seu coração e que te faça fechar os olhinhos rasgados.

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Quero que ele te esquente como o sol no sereno, e que te faça rir um sorriso pequeno, sozinho, em qualquer lugar.

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Ele vai ser tão lindo que vais querer decorar cada signo, cada curva da minha letra, vai tatuar um verso no corpo, vai te fazer lembrar da tua flor.

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Você vai procurar um papel cheiroso, uma foto, ou talvez uma moldura, e não vai achar. Nada vai parecer ornar com ele.

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Te lembrará de um tempo que nunca existiu, nem nos teus sonhos, de uma felicidade tão plena que foge às tuas habilidades sequer cogitá-la, que existe maior que vc, que eu, que tudo junto...

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...vai soar como toalha de setin, como vela acesa, como reza pronta, como pão e fome, como água e sede... vai abrir seus olhos, então, quem sabe, você vai me ver.

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Com ele, por meio dele, eu vou te obrigar a pensar em mim, nos meus versos, nos meus cheiros, nos meus temperos.

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Quem sabe assim, somente assim, desse jeito mesmo, deixará de ser eu, você, pra ser a gente, certa pessoa do plural.

O nada que você me deu

Enquanto todo o resto pára pra te ouvir eu olho pra vc e vejo nada. Nada.

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Não um nada qualquer, um nada doído, ressentido, que por isso mesmo deixa de ser nada e dói.

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Essa dor não é dor, é um nada acrescido. Somente chega a ser dor porque lhe falta um nome que caiba. Então fico com a dor, mesmo achando e esse nada deveria ter o teu nome. Deveria ter aqui a tua foto estampada.

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Esse nada que não é nada, essa dor que não é dor... certamente é menos do que eu precisava, e bem maior do que devia ser. Mas é, e está aqui, e me acompanha. Fui eu quem deixou doer.

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Vc me ofereceu nada e eu aceitei. Eu quiz receber. Era meu: o nada que você me deu. Fiz o que quis com ele -já que era meu- só que tudo que eu fiz foi errado, de forma que não demorou para o nada deixar de ser nulo e se tornar negativo, em conflito com qualquer positivo que ousasse existir. O positivo nunca foi alimentado, morreu agonizado numas lembranças turvas e sem registro, carentes de sentido.

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Deixei o nada tomar forma, gosto e cor. Um nada que pesa, que deixa de ser nada pra ser dor.

... e corre

Olha pro teto e pensa em tudo, em todos. Imagina o que estão fazendo, comendo, vestindo, pensando, e em o que poderia estar fazendo, comendo, vestindo, amando... começa a perceber quanto amor tem dentro, e de repente descobre que ama todo mundo, e isso não lhe cabe.

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Ama tudo ao mesmo tempo, de uma vez só, e percebe que morreria por cada ser em específico.

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Calça o sapato adequado e corre, numa rotina menor do que a do pensamento, com o cabelo preso no alto e balançando em pêndulo. Tenta gastar o excesso com desgaste da matéria permanente, da carcaça, o mais rápido que pode.

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Redescobre o mundo nessa nova perspectiva.

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Enxerga de novo o teto e sabe que isso vai mudar tanta coisa pra sempre.

Deixo pro meu bem


Escreveria mil versos agora. Poderia fazê-lo. Contudo, a mim, pareceria falso.

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A vc meu bem, desejo tudo o que palavras as não se prestam.

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Aqui elas são inúteis. Como descrever o que se sente? Como sentir num pedaço de papel?

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Deixo pro meu bem a promessa de horas de espera, tardes curtas e sussurros no ouvido.

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Deixo pro meu bem olhares incrédulos, abraços desajeitados, denguinhos e doces.

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Deixo pro meu a certeza de queixas intermináveis, essas que duram a eternidade dos poucos segundos que precedem a saudade no exato instante que ela está pra terminar. Quando meu bem abre a porta, e tudo se esvai. O resto eu nem sei mais.

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Deixo tudo pro meu bem com a esperança de que aproveite o tempo que nos e dado, enquanto ele nos basta.

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Esse meu bem.... esse bem que nem é dela, dessa mocinha tão simples, tão bege, tão boba, tão besta.

Nosso queixo

Ele tem o queixo como o meu: angular e projetado pra frente. Usa todo dia o mesmo tipo de camisa _comprou uma de cada cor num atacado qualquer. Pois é, eu percebi.

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Também notei que tem o polegar meio torto e que isso te incomoda já que costuma esfregar o indicador justamente no desvio, e que é canhoto.

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E esse nariz? Perfeito. Foi “talhado a faca” e largado na face como se todo o resto se tratasse de uma procissão de infiéis e somente ele fosse bendito. Também percebo quando me olha pelas costas.

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Tem as orelhas pequenas e não é alto. Também não é magro, tem um corpo bravamente definido apoiado em ombros austeros. Meus conceitos de harmonia todos em conflito.

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O que este homem fala, do jeito que fala e aquilo que invade o mundo nesse processo todo... Como dizer?

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Ele é esnobe e arrogante, e insiste em me olhar meio de lado vez ou outra, me alfinetar vez ou outra.

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Fico horas te observando (meu pequeno capricho desaforado). Notei um lapso temporal curioso entre nossos olhares desencontrados, e isso tudo me diverte como nada nesses últimos tempos. Me ocupo tentando desvendar o que pretende, há tantos motivos pra acreditar que quer dizer sempre o contrário do que diz de fato...

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E os olhos! Não ouso, contudo, se conseguisse descrevê-los certamente denunciaria tua identidade, e isso não pretendo (são únicos). Olhos incríveis. Nada se pode dizer por meio deles, são indecifráveis. Não confunda, não são vazios, são complexos.

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perturbam

confundem

Azuis ou verdes?

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Não pude aceitar seu duelo porque o momento do embate sempre me escapa. Por que insiste em se esconder por trás de “tudo isso”? Tenho preguiça de “tudo isso”.

Espremo

Sou alguém que não posso deixar de ser.

Desse jeito: compelida.


E eu me espremo,

porque não passo.

E eu me toco,

e não me sinto.

Então me espremo,

e não me acho.

Inquietude inicial

Ando forçando tanto as coisas ultimamente, penso que nem seria assim tão estranho se eu forçar dessa vez também...

Vou sim! Vou fazer um blog.

E ta aqui: ta feito.

[...]

Me pergunto o que fazer com ele...

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Sou uma técnica meu bem, fui criada pra ser eficiente, bem sucedida, mulher moderna e aquela coisa toda (com camisa do Che e óculos de acetato). Há muito pouco tempo eu achava que a única coisa que realmente valia a pena na vida era estudar (medíocre, eu sei), e eu fechei o olho pra tanta coisa, e isso nem serve mais pra nada, nem rima.

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Deixei de viver tanta coisa, fazer tanta coisa... e hoje me faz falta algo que eu nem sei identificar, pq tudo o que eu não sou é intuição, tudo o que eu não tenho é essa sensibilidade pra vida.

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E de uns tempos pra cá me vejo tentando espremer de mim essa angústia de qualquer forma. Esse é um tema recorrente na minha vida: me espremer. Deve haver alguma coisa que sirva.

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Então eu sento e faço isso que, definitivamente, faço tão mal: escrevo.

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Não tenho dom artístico nenhum: sou uma técnica. Até nisso eu esbarro em mim: acho que se treinar muito acabarei conseguindo. Só mais um argumento de coerção interna, e argumentos aqui não servem. Se me convencer de que sei escrever não vai muda em nada minha condição. O tanto que tenho pra dizer é inversamente proporcional à minha capacidade de fazê-lo.

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Ok, tenho uma teoria: dentre as fases que compõem o processo criativo há pelo menos algumas etapas a serem calcadas entre o conhecimento norteador de todos os conceitos que recebemos do mundo exterior e a inquietude inicial da inspiração. É exatamente nesse ponto que eu empaco. A deficiência não é de leitura, é de talento mesmo.

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Mas tem essa coisa que me persegue e que quero tanto expulsar. Então insisto em acreditar que um dia eu vou entender o que me falta e que vai fazer de mim um ser humano, e não uma força de trabalho. E eu vou seguindo, acreditando em qualquer coisa que me dêem, porque eu preciso mendigar até isso: o essencial que me falta.

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Só que o tempo passa, e o tônus da pele já não o mesmo. Não vejo mais a vida como um mar de cores e sons. Está difícil ver o sol se por, também não ouço mais a chuva caindo no telhado, não sinto mais o gosto da comida. Eu sou a metade do pouco que era, e o resto que me completa é esse vazio que insisto em preencher, com o que talvez não me convenha, que nem me rende uns bons versinhos, nada, eu sou uma técnica, e não poeta.

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Suponho que pra isso sirva esse blog, pra não me deixar esquecer quem estou deixando de ser (a menina do balanço). Um lembrete, ou talvez uma cápsula do tempo, que eu ousaria confiar a ninguém.

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Leitor (se é que vc existe), não tenho nada a ver com vc, não fecho nada contigo, não te requisito! Esse blog é meu, e só meu. Sou eu manifestada.

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Não espero nada de você blog querido, sem grandes expectativas e pretensões. Só espero que exista tempo o suficiente pra cumprir a finalidade a que te destino, minha tentativa de preencher algumas reticências, algumas aspas, e só.

 

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